Fundada a partir de um projeto de Sumio Tsujimoto e Vera Lúcia Sugai, no começo, o desejo era montar uma academia: um espaço dedicado às artes marciais, ao ensino e à convivência que se forma em torno do tatame.
Com o passar dos anos, a experiência e o estudo foram ampliando esse propósito. A prática mostrou que ensinar uma arte marcial vai além de transmitir uma técnica. Aquilo que nasceu como academia se transformou aos poucos em escola.
O Judô esteve na origem desse trabalho e segue como a principal referência da Kyto. Décadas de prática, ensino e estudo foram dando forma a uma maneira própria de compreender e transmitir esse conhecimento.
Ao lado de Sumio, Vera Lúcia Sugai teve participação fundamental na construção da escola. Psicóloga, estudiosa e praticante de artes marciais, ampliou o olhar sobre o treinamento e sobre o ser humano dentro dele. Desse trabalho conjunto vieram estudos, livros e boa parte dos princípios que hoje sustentam a identidade da Kyto.
Sobre o nome
O nome Kyto reúne duas histórias que se encontraram.
A Kitō-ryū é uma das tradições de jūjutsu estudadas por Jigoro Kano antes da criação do Judô Kodokan. É, portanto, uma referência às raízes históricas do Judô que a escola pratica.
Ao mesmo tempo, Kito era o sobrenome da família materna de Sumio antes da imigração para o Brasil.
O nome da escola veio desse encontro entre a linha da arte e a linha da família. Mais tarde, a grafia Kyto passou a representar a identidade própria construída pela escola ao longo dos anos.
As modalidades
Em mais de quatro décadas, diferentes modalidades encontraram seu lugar na Kyto: Judô, Karatê, Aikidō, Jiu-Jitsu, Tai Chi Chuan e Yoga. Cada uma é conduzida com respeito à sua tradição e aos seus conhecimentos específicos.
A Escola Kyto procura preservar uma maneira de ensinar e conviver. Isso quer dizer respeito ao conhecimento, aos professores, aos alunos e ao tempo que cada pessoa leva para aprender.
Uma escola não se constrói apenas com paredes, tatames ou técnicas. Ela se constrói com pessoas, histórias e conhecimento que passa de geração em geração.
Faixa preta 8º Dan em Judô, formado em Educação Física e Pedagogia, estudioso das artes marciais. Sumio Tsujimoto, o “Sensei Sumio”, dedica cerca de cinco décadas ao Judô.
Começou ainda jovem. Foi atleta, treinou em alto volume, passou ao ensino e à formação de professores. Em cada fase, uma mesma pergunta se aprofundava: o que o Judô ensina além da execução técnica correta?
Como atleta, integrou a Seleção Brasileira de Judô em diferentes ocasiões. Somaram-se mais de vinte anos de treinamento e competição, com medalhas e títulos em Jogos Pan-Americanos, Campeonatos Sul-Americanos, Brasileiros e Paulistas. Depois desse período competitivo, passou a preparar atletas. A experiência acumulada nos anos de tatami se transformou em trabalho técnico com quem começava.
Foi no ensino, no entanto, que o trabalho tomou outra direção.
Décadas de dojô mostraram a ele algo além da técnica. Como cada aluno reage ao erro, ao medo, à derrota, à repetição e à presença do parceiro conta a história do praticante tanto quanto o movimento aprendido.
Dessas observações veio uma compreensão diferente: o Judô, para ele, funciona como ferramenta de educação.
A formação em Educação Física e Pedagogia entrou nesse trabalho, junto com o estudo continuado das artes marciais e o diálogo permanente com Vera Lúcia Sugai, psicóloga e sua companheira de vida e de trabalho. Desse conjunto nasceu uma visão própria sobre ensinar e aprender. Dessa trajetória vieram também estudos e livros como O Caminho do Guerreiro, escrito em parceria com Vera Lúcia Sugai.
Sensei Sumio também ensinou História e Filosofia do Judô na Federação Paulista de Judô. Nesses cursos, discutia as origens da arte e os princípios que sustentam a prática, para outros praticantes e professores.
Foi nesse período que desenvolveu o Método Kyto, criado e refinado na prática diária do dojô. O método parte de uma ideia direta: quando o aluno entende o que está fazendo, a repetição da técnica passa a produzir aprendizado, e não apenas familiaridade com o gesto.
Movimento, respiração, postura, atenção, relação com o parceiro e os rituais do Judô passam a ser estudados pelo que está em jogo por trás da forma visível: o princípio que cada gesto realiza.
Desde a origem da Escola Kyto, Sensei Sumio participa diretamente da identidade da escola e da maneira como o Judô é ensinado dentro dela.
O trabalho segue voltado ao ensino e ao estudo do Judô como ferramenta de consciência. Técnica correta é parte disso. O objetivo, porém, é que cada pessoa que passa pela escola compreenda um pouco melhor a si mesma e a maneira como se relaciona com o outro.
Há coisas que o corpo aprende antes que a gente consiga explicar. Um gesto repetido muitas vezes. A respiração que se altera diante de uma dificuldade. O impulso de avançar, o receio de cair, a pressa para vencer, a dificuldade de esperar. A prática revela aspectos de nós mesmos que costumam passar despercebidos no dia a dia.
Talvez por isso as artes marciais e as antigas disciplinas do corpo tenham atravessado tantos séculos. Elas ensinam movimentos e formas de defesa, sim. Mas colocam o praticante diante de algo para o qual nem sempre há tempo ou disposição fora do dojô: si mesmo.
Na Escola Kyto, procuramos não separar aquilo que o corpo faz daquilo que a mente pode compreender. Por que este movimento existe? Por que repetimos determinados gestos? O que uma saudação procura nos recordar? O que muda quando respiramos com atenção? O que o parceiro revela sobre a nossa maneira de agir?
Nem todas as respostas aparecem de imediato. Algumas só começam a ser compreendidas com o tempo, pela repetição e pela experiência acumulada de anos de prática.
É nesse espaço, entre fazer e compreender, que se encontra grande parte da nossa maneira de ensinar.
Aprendemos pelo corpo desde cedo. Antes de compreender conceitos como disciplina, respeito ou responsabilidade, experimentamos limites no próprio corpo. Convivemos com o outro. Erramos, repetimos, tentamos de novo. Com o tempo, aquilo que parecia apenas um exercício pode adquirir outro significado.
A técnica permanece técnica. O movimento continua sendo movimento. Quem pratica, no entanto, talvez já não seja exatamente o mesmo.
Essa maneira de compreender a prática está presente nos estudos e nas obras de Vera Lúcia Sugai e Sumio Tsujimoto, entre elas O Caminho do Guerreiro I e II e A Arte da Estratégia.
O diálogo com tradições antigas, com pensadores como Sun Tzu e Miyamoto Musashi e com a experiência vivida em décadas de ensino mantém presente uma pergunta na Escola Kyto: o que fazemos com aquilo que aprendemos?
O conhecimento que permanece apenas no livro se limita à informação. A técnica que permanece apenas no treinamento se limita à habilidade. Quando aquilo que aprendemos começa a modificar nossa maneira de perceber, escolher e conviver, o caminho ultrapassa o espaço da prática.
Na Escola Kyto, não procuramos oferecer respostas prontas para a vida. Procuramos preservar um lugar onde ainda seja possível praticar, estudar, conversar e fazer boas perguntas.
Algumas delas podem nos acompanhar por muito tempo.


